O
DESAFIO QUE VEM DA ÍNDIA (Jornal do Brasil -23/11/2000)
Há
mais de 10 anos temos tido ações, e ate incentivos fiscais
(Lei 8.248), para que os programas computacionais (software)produzidos
no pais viessem a ocupar um espaço significativo em nosso mercado
e na exportação. Ate agora o êxito dessas ações,
por falta de uma política mais consistente, tem sido muito modesto,
ate mesmo decepcionante : em 1999 exportamos apenas cerca de US$ 60
milhões e importamos mais de US$ 850 milhões, alem da
pirataria e do contrabando, estimulados em US$ 920 milhões no
mesmo ano.
Essa enorme diferença é apenas parte do déficit
tecnológico que tem tomado o desenvolvimento do pais refém
do fluxo de capitais externos, pois nos falta uma tração
própria e autônoma. Mesmo o pequeno crescimento do PIB
(Produto Interno Bruto, soma de tudo o que o pais produz em um ano)
havido nos anos 90, de 2,7% anuais em media, acarretou uma rápida
elevação do déficit tecnológico para US$
2,5 bilhões em 1999. O licenciamento de patentes cresceu mais
de 100 vezes e a transferencia de tecnologia mais de 20 vezes.
E essa conta não inclui a remuneração de inovações
tecnológicas quando embutida nos custos de insumos, componentes
e equipamentos importados pelas filiais das empresas transnacionais
com valores superiores aos preços de mercado, como foi revelado
recentemente na CPI dos Medicamentos.
Esse quadro pode e deve ser alterado, tanto no software quanto na geração
de inovações tecnológicas em outras áreas.
E isso deveria ser objeto de uma política consistente de desenvolvimento
industrial, baseada no fomento à pesquisas tecnológicas
realizada no ambiente da produção empresarial. É
essa a pesquisa que faz o pais crescer, porque gera novos produtos e
distribui renda.
Um novo desafio nos vem agora de um pais bem mais pobre que nos, mas
que tem lançado um extraordinário êxito em suas
ações de inovação na área de software
: a Índia. Com a liderança da cidade de Bangalore, no
Estado de Kamataka, Sul da Índia, foi instituído um programa
para aumentar a formação de engenheiros, que em 1998 já
alcançava a ordem de 20.000, anuais, em mais de 70 escolas desse
estado, e cerca de 50.000, em todo o pais.
Em paralelo, Bangalore criou um parque tecnológico especifico
para a informática ao longo da Mahatma Gandhi Road, hoje chamado
de Vale do Silício da Índia , por analogia ao congênere
da Califórnia, Estados Unidos. Nesse parque estão hoje
escritórios de programação de empresas de todo
o mundo, tais como as americanas, Lucent Technologies, Motorola e Texas
Instruments, as européias Ericson, Bosh e Siemens e as orientais
Sony e Samsung, entre outras, mais de 200, empregando mais de 25.000
pesquisadores de informática (um terço de mulheres), com
a idade média de 25 anos, e uma renda oito vezes maior do que
a média da região, segundo dados de 1998.
Esses parques de software espalharam-se por outros estados da Índia,
atraindo mais empresas. Assim é que a Microsoft decidiu instalar-se
em Hyderabad, no Estado de Andhra Pradesh, um pouco mais ao Norte de
Bangalore. Mas é o Vale do Silício da Índia ainda
o principal centro produtor, representando um terço dos quase
US$ 5,7 bilhões de exportações alcançando
no ano fiscal abril/1999 - março/2000, e que em 1992, há
apenas 8 anos, eram pouco mais de US$ 200 milhões. Isso representa
o espantoso crescimento médio de 50% a cada ano, tornando a índia
o segundo exportador de software , vendendo 60% do exportado para os
EUA e 20% para a Europa.
Uma recente avaliação desse mercado pelo banco de investimentos
Goldman Sachs ( THE HINDUSTAN TIMES, 29.09.00) prevê que a índia
devera exportar, em 2004, algo perto de US$ 30 bilhões em software
, o que a tornaria o maior exportador desse setor, e asseguraria o atual
ritmo de crescimento. Isso é mais do que a metade da soma que
o nosso pais exportara no ano corrente.
Mesmo Goldman Sachas estima também que a Índia devera
ter 70 milhões de internautas naquele ano, número que
hoje é apenas 4,8 milhões, portanto um crescimento de
70% ao ano, ainda maior do que das exportações de software,
o reflete o efeito distribuidor de renda dessa nova economia.
Em nosso país, a recente criação dos Fundos Setoriais
pode ser o primeiro passo para tornar a inovação tecnológica
o fator de tração do desenvolvimento, se sua atuação
vier a deslocar o foco das pesquisas para a tecnologia real, gerada
no ambiente de produção das empresas. Mas mesmo isso não
será o bastante. É necessário termos uma política
consistente de desenvolvimento industrial, baseada nas nossas vocações
e necessidades, e voltada para a competitividade e a exportação,
mobilizando coerentemente todos os recursos públicos: o poder
de compra, a política fiscal e o financiamento seletivo.
Sem possibilitar, e ate fomentar, o acesso direto aos recursos dos Fundos
ao setor produtivo empresarial, continuaremos a produzir, salvo algumas
exceções que confirmam a regra, quase só a "tecnologia"
de biblioteca: papers e mais papers. Era o que a Índia também
fazia, mas soube mudar eficientemente.
* Professor da UFRJ Prof. ROBERTO NICOLSKY (nicolsky@if.ufrj.br), publicado
no Jornal do Brasil do dia 23 Nov. 00.